Início Economia Para quem voltou agora do Carnaval, um aviso: o mundo mudou.

Para quem voltou agora do Carnaval, um aviso: o mundo mudou.

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Luis Fernando Veríssimo uma certa vez escreveu que, “no Brasil, como se sabe, o verdadeiro dia primeiro de janeiro é a quarta-feira de cinzas – à tarde”. Portanto, quem acordar nesta quarta-feira de cinzas, com confete no cabelo e serpentina no pulso, precisa passar um café, respirar fundo e se preparar para saber que vai despertar para um novo mundo. Inesperado e mais perigoso, como se os adultos tivessem abandonado suas responsabilidades.

A guerra com seu rosto desumano voltou ao território europeu, repleto de cicatrizes em cada posto de fronteira. Uma capital europeia está sendo bombardeada, praticamente ao vivo.

Enquanto o Carnaval pandêmico ocorria para alguns e era apenas um sonho para outros, a realidade é que a guerra na Ucrânia promoveu um abalo sísmico no planeta. Se o chão tremeu, não foi pela bateria da escola de samba. A cortina de uma nova era foi levantada sob o som dos canhões. E arrastou consigo o medo de um desmonte dos princípios da segurança coletiva. Pela primeira vez em décadas, líderes voltaram a falar sobre o impensável: o uso de armas nucleares, num gesto que serve tanto para a dissuasão como para alertar que o tempo de um mundo infinito parece ter chegado ao seu final. O debate entre a sobrevivência e o fim voltou a existir?

O novo período da história também é um em que fronteiras, soberanias e independência de um país não bastam para evitar uma invasão. De fato, a nova era é tão hipócrita como surpreendente. Afinal, em que outro momento poderíamos imaginar que a potência americana que invadiu o Iraque, Afeganistão e tantos outros países pelo mundo agora, com o dedo em riste, denuncia Moscou por… invadir outros países? Outra transformação que abalou a política internacional foi o anúncio por parte da Alemanha de que enviaria pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial armas para um país estrangeiro, no caso da Ucrânia. Na nova era, até mesmo o conceito de neutralidade se desmancha. Na Suíça, oo governo abandonou nesses últimos dias a marca registrada de sua política externa para aderir ao projeto da UE de adotar sanções contra os russos e confiscar bilhões de dólares em nome de oligarcas em bancos nos Alpes. “Saudades e cinzas foi o que restou”, teriam cantado os russos ao saber do destino de suas contas secretas. Esse também é o momento em que, com canais diplomáticos fraturados, a ONU foi palco nesta semana de um protesto por parte de dezenas de embaixadores e ministros contra o chanceler russo Sergey Lavrov. Num ato raro, o ocidente literalmente virou as costas para o chefe da diplomacia russa quando ele tomou a palavra no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas para justificar o injustificável.

Após o Carnaval 2022, o fluxo de pessoas pelo mundo também mudou e a ala mais arrogante da Europa descobriu que a palavra “refugiado” não tem cor nem religião. Pelas estimativas da ONU, o continente poderá ter sua pior crise de refugiados do século, com 4 milhões de ucranianos que vão deixar o país. Agora, eles não são afegãos ou sírios, nem haitianos ou congoleses. Mas europeus de olhos azuis e cristãos. Os ecos das bombas desconhecem nacionalidades. Mas governos parecem que não entenderam que não há classificação para traumas, com base em sua origem. Imagine você, um refugiado sírio que viu seus irmãos serem assassinados e tua mulher estuprada, descobrir que os ucranianos não precisarão pagar pela passagem do metrô na França, apenas por serem refugiados europeus?

No mundo dos esportes, o impensável também ocorreu. Entidades internacionais marcadas por escândalos de corrupção e confortáveis ao saudar mãos repletas de sangue, agora se apressam para suspender a Rússia dos torneios esportivos. Não me lembro de o COI e a Fifa adotarem a mesma reação quando o governo de George W. Bush se valeu de uma mentira para derrubar um governo, por mais repressor que ele tenha sido, e colocar suas tropas nas areias do deserto. Não demorou para que, no novo mundo, a Uefa tivesse a ousadia de romper um acordo de publicidade com a Gazprom, depois de uma década na qual o mundo do futebol se comprometeu a exibir o nome da estatal russa em dezenas de jogos.