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El Niño explica os temporais e ventanias que atingiram o Brasil? Especialistas esclarecem

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El Niño já influencia o clima no Brasil, mas não explica sozinho sequência de eventos extremos, apontam especialistas

Enchentes, tornados, queda de granizo, deslizamentos, rajadas de vento superiores a 100 km/h e até a formação de uma rara nuvem de rolo marcaram uma semana de fenômenos climáticos extremos em diferentes regiões do país. Os episódios provocaram mortes e prejuízos no Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro, levantando dúvidas sobre o papel do El Niño nesses acontecimentos.

Especialistas ouvidos pelo Fantástico afirmam que o fenômeno climático já exerce influência sobre o tempo no Brasil, principalmente na Região Sul, mas ressaltam que ele, por si só, não é capaz de explicar todos os eventos registrados recentemente, como o forte vendaval que atingiu São Paulo e o Rio de Janeiro.

De acordo com o pesquisador Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os efeitos do El Niño começaram a aparecer antes do esperado. Segundo ele, os estudos indicam uma antecipação da influência do fenômeno sobre o clima brasileiro.

O El Niño ocorre quando há um aquecimento acima do normal das águas superficiais do Oceano Pacífico, próximo à costa do Peru. Essa alteração modifica a circulação da atmosfera e interfere no regime de chuvas e nas temperaturas em diversas partes do mundo.

Para Giovanni Dolif, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o fenômeno já favorece a ocorrência de tempestades severas e enchentes no Sul do Brasil, e a tendência é que seus impactos se intensifiquem nos próximos meses.

Sul concentra os efeitos mais evidentes

O Rio Grande do Sul foi uma das áreas mais afetadas durante a semana, com registros de chuvas intensas, granizo e tornados associados à passagem de uma forte frente fria.

Segundo os especialistas, a Região Sul é a primeira a sentir de forma mais expressiva os efeitos do El Niño, já que historicamente o fenômeno contribui para o aumento das chuvas e pode potencializar episódios de precipitação intensa.

Apesar disso, os pesquisadores reforçam que eventos meteorológicos severos resultam da combinação de diversos fatores atmosféricos. O El Niño é apenas um deles.

Lincoln Muniz Alves alerta que o país deve permanecer atento, já que há possibilidade de aumento na frequência e intensidade de eventos extremos até o fim do ano.

Vendavais em São Paulo e no Rio tiveram outra causa

Embora o El Niño tenha influência sobre parte das ocorrências registradas no Sul, os especialistas afirmam que ele não foi o responsável direto pelos vendavais que atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro.

Segundo a explicação apresentada, uma intensa massa de ar frio avançou da Região Sul em direção ao Sudeste e encontrou uma massa de ar mais quente do que o habitual para o inverno, deslocando-se em sentido contrário.

O encontro entre essas duas massas de ar criou condições para a formação de uma frente de rajadas extremamente intensa. Quanto maior a diferença de temperatura entre elas, maior o potencial para a ocorrência de ventos destrutivos.

Esse processo provocou a queda de árvores, danos estruturais, interrupções nos sistemas de transporte e acidentes que resultaram em mortes nos dois estados.

Nuvem de rolo chamou atenção

Outro fenômeno que surpreendeu foi o aparecimento das chamadas nuvens de rolo, formações alongadas que se assemelham a grandes cilindros em movimento no céu.

Essas nuvens surgem quando o ar quente e úmido sofre condensação rápida em um ambiente marcado por forte contraste de temperatura e ventos intensos.

O piloto Passos relatou ter presenciado o fenômeno durante um voo entre o Rio de Janeiro e uma plataforma de petróleo em alto-mar. Segundo ele, a velocidade com que a nuvem se aproximou foi impressionante.

Em poucos minutos, durante a aproximação para o pouso, a velocidade dos ventos aumentou de aproximadamente 20 km/h para cerca de 100 km/h. Diante das condições adversas, a tripulação decidiu cancelar a operação e retornar ao Rio.

Com mais de 20 anos de experiência e mais de 8 mil horas de voo, o piloto afirmou perceber mudanças no comportamento do clima, destacando que as alterações têm sido rápidas e inesperadas, mesmo quando há previsão meteorológica.

Aquecimento global intensifica eventos extremos

Enquanto o Brasil enfrentava episódios severos, diversos países também registraram eventos climáticos de grande impacto. A Índia sofreu com inundações e deslizamentos; a China enfrentou enchentes e uma forte onda de calor; a Alemanha contabilizou milhares de mortes relacionadas às altas temperaturas; a Inglaterra registrou uma seca histórica; e o Chile foi atingido por nevascas e inundações.

Estudos citados pelo Fantástico indicam que o aquecimento global tem aumentado tanto a frequência quanto a intensidade de diversos fenômenos climáticos extremos. Pesquisas realizadas na Europa apontam, por exemplo, que as mudanças no clima tornaram incêndios florestais mais prováveis em razão da elevação da temperatura média do planeta.

Segundo Giovanni Dolif, uma atmosfera mais quente tende a se tornar mais instável, turbulenta e imprevisível, favorecendo a ocorrência de eventos severos.

A avaliação dos especialistas é que o El Niño já exerce influência sobre os fenômenos extremos registrados no Brasil, especialmente na Região Sul. No entanto, seus efeitos ocorrem em um contexto mais amplo, marcado pelo aquecimento global, que cria condições cada vez mais favoráveis para tempestades, enchentes, ondas de calor e outros eventos meteorológicos de grande intensidade.